Tudo que experimentamos existe primeiro dentro de nós; a alegria , a angústia, o medo, a coragem, a rejeição, a aceitação. Diferente do algoritmo do instagram, o nosso não muda; buscamos fora mais daquilo que existe dentro; já percebeu que quando queremos muito algo, aquilo aparece pra gente a todo momento? É assim que funciona também com os traumas, medos e situações mal resolvidas dentro de nós.
Todos nós somos um conglomerado de memórias (nossas, dos nossos antepassados, do inconsciente coletivo, da nossa alma) algumas memórias são afetivas e causam bem estar, outras nem tanto mas que permanecem como aprendizado.
Já os traumas por exemplo, são memórias com carga emocional mal elaboradas, que até serem ressignificados dentro de nós continuam reaparecendo em diversas situações em nossas vidas; isso porque este conteúdo fica latente no subconsciente e o cérebro entende que aquela situação ameaça sua existência, então qualquer episódio, cheiro, som, gesto que remeta à situação traumática vivida, será recebido no seu hipotálamo como um perigo eminente. A amígdala cerebral é ativada, liberando adrenalina na corrente sanguínea; você sua frio, as pupilas dilatam, o coração acelera e os sentidos ficam mais aguçados; afim de te te proteger da eminência da morte – o corpo se prepara para lutar ou fugir.
O problema é que essas memórias negativas mal elaboradas podem desencadear todo este processo por causa da fatura do cartão por exemplo, que te faz lembrar da impotência que sentiu quando houve o trauma; ou por causa de uma discussão saudável em casa, que o tom de voz é parecido com o episódio vivido e te leva emocionalmente onde sua ruptura emocional começou. Quando não elaboramos bem o trauma, nosso cérebro fica em modo rastreio para que consiga se precaver do sofrimento de viver tal episódio novamente.
O Trauma não é a situação em si, mas a maneira que você conseguiu lidar emocionalmente com aquilo – ou não. Quando acontece algo em que o sujeito não se sente emocionalmente preparado para lidar ele tenta anestesiar a dor, para não sentir e assim conseguir superar. Mas ai é que mora o problema. Quando é feita essa tentativa de ruptura interna do sentir para o não sentir é como jogar poeira debaixo do tapete, não vai embora e só cresce; como seres humanos a nossa maior dádiva é o sentir e poder refletir sobre isso; negar a nossa natureza nos adoece profundamente.
Quando optamos por não sentir a dor, a raiva, a impotência, a incapacidade perdemos a oportunidade e elaborar esses sentimentos tão profundos e reais da nossa alma e de fato conseguir transpor nossas limitações; somente quando nos permitimos realmente sentir é que podemos nos curar; o curar não significa esquecer, mas lembrar sem se machucar novamente; entender que aquilo fez parte da sua história mas não é a sua história.
Entrar em contato com nossas sombras pode não ser um processo tão simples e fácil, mas é sempre mais leve se nos permitimos buscar algum profissional para segurar nossa mão e nos auxiliar. A caminhada para se curar é sua responsabilidade, mas você não precisa estar sozinho.

Empresária, mãe, mulher, psicanalista, tanatologa e terapeuta.
@karolynoberg